
Ninguém poderia imaginar que aquele domingo terminaria daquela maneira. Tantos domingos iguais, tantas segundas e terças-feiras...Tudo igual. Muito amor no começo, muito cuidado. Promessas e juras de amor. Um pouco de ciúme, sempre achei que fosse natural. Após o casamento quem imaginaria que aquela semente de ciúme germinaria tomando as proporções de uma obsessão, calúnias insultos e humilhação? Não era amor, nunca foi. Ninguém tinha notado isso. Notei tarde demais.
Eu o conheci numa tarde de primavera. Um barzinho à beira mar e um dia muito agradável - nem tão quente, nem tão frio - recepicionaram o começo do que seria um amor eterno....Uma amiga me apresentou. Ela foi-se embora, tinha "compromissos", eu e ele ficamos. Tantos outros encontros se sucederam, mas sem a presença dessa minha amiga. Alguns meses de encontro, muitas flores e muitos bombons, confidências, amizade e admiração me levaram ao altar.
Notei pequenas estranhezas logo na lua-de-mel. Ele tinha muita pressa em me possuir! Nem pensou em me satisfazer, em ser gentil comigo como nas outras vezes. Desta vez foi diferente. foi frio. Satisfez-se de mim, rolou pro lado e dormiu um sono pesado. Quis chorar enquanto ele passava aqueles poucos minutos em cima de mim...Mas assim o fiz quando notei que ele realmente tinha pegado no sono. Já aliviada, pensei que aquilo foi só uma noite ruim e que noites melhores chegariam. Porém, noites apenas menos piores aconteciam dependendo do humor dele. Comecei a desconfiar que tivera eu feito uma má escolha...
Não gostei de saber, após a lua-de-mel, que moraríamos com a mãe dele. Não tínhamos planejado isso! Juntei minhas economias e entreguei a ele certa de que moraríamos num apartamento, só nosso! O seu pai tinha morrido já fazia anos, ele era filho único. A mãe (que venerava e o defendia em tudo) viveria sozinha. Restaria a ela morar com a sua irmã bem mais velha e sua mãe. Julgou (sozinho) por bem que todos moraríamos juntos.Nós, a mãe, a tia e a avó.
Todas muito subservientes a ele, tudo o que eu dizia que parecesse contra ele era motivo de bronca. A mãe e a tia eram praticamente escravas dele. A avó vivia acamada, caquéctica, nunca ouvi a voz dela...Precisava de cuidados especiais, mas a minha sogra e sua irmã transferiam a atenção e cuidados extras a ele! Comecei a me queixar, mas isso só piorava tudo. Nada que dissesse a elas faria alguma diferença.
Passei então a me queixar com ele, que por sua vez, gritava comigo. Passei a encará-lo e contrariá-lo...o dia em que eu, por vários e vários motivos, deixei de o satisfazê-lo como homem fui agredida... Fui pega com força incrível pelo braço, com a outra mão tapou com força e minha boca...tentei correr, mas foi inútil. Fui jogada na cama...senti todo o peso do seu corpo másculo cair em cima de mim, o cretino com aquela mão enorme continuou tapando a minha boca, e com a outra levantou uma de minhas pernas...nunca demorou tanto tempo pra sair de mim...Achei q morreria ali, Bem que quis...Pra quê continuar vivendo? Recebendo aquelas lambidas nojentas, ouvindo aquelas risadas de escárnio...A violência doméstica não parou com o tempo. Eu nunca conseguia me defender, pois sou pequena e fraca, o contrário dele. aquela casa me causava muito medo. O meu maior medo era o de engravidar. Ficava sempre atenta ao meu ciclo menstrual. Um dia de atraso já me causava um desespero interno. Quando isso acontecia eu me trancava no quanto e chorava... Não conseguia me imaginar cuidando de uma criança naquele ambiente tão opressor. Tudo me sufocava.Eu estava sozinha. Não tinha cúmplices, aquelas mulheres me odiavam, aquela casa grande só me rendia serviços domésticos infindáveis,à noite o meu marido me violentava...Passava algumas horas do meu dia conversando com a avó. Mesmo muda e inválida, sempre tive a impressão de que ela queria, com os seus olhos, me alertar de alguma coisa. Ela passou a ser a minha única companhia. Eu falava com elas algumas coisa engraçadas, nobres ou tristes que tinha visto na televisão, cuidava de sua alimentação e lhe dava banho...Em troca ela sorria pra mim. Isso era o suficiente para lavar a minha alma...
Um dia tive a oportunidade de ficar sozinha em casa. Aquelas cobras escravas do sádico que era o meu marido saíram, levaram a minha senil amiga ao hospital. Suspeitávamos que ela estivesse com pneumonia, tossia muito! O carrasco tinha ido trabalhar e eu fiquei só naquele casarão antigo, escuro e que cheirava mofo. O dia estava muito agradável, um sol lindo e um céu cheio de nuvens.Fiquei surpresa ao constatar isso ao abrir a janela. De súbito me veio um desejo de sair e aproveitar o dia, fugir! Fugir? Melhor não...Fugir sim! Comecei a fazer minhas malas! Aquelas mulheres demorariam a retornar e o desgraçado também. faltava muita coisa pra guardar. Eu não sabia para onde iria e nem como iria... Minha família estava toda no interior do estado.Eu em Santos, apenas a trabalho, retornaria dentro de um ano. Mas, antes de terminar o prazo do contrato com a empresa em que trabalhei, fui demitida. Não quis avisar ninguém. Logo me casei. A minha família soube do meu casamento, mas não que eu estava desempregada...Achei melhor assim, quis passar a impressão de que tudo andava bem...Para voltar eu precisava dispor de uma certa quantia de dinheiro. Quantia essa que eu só dispunha de um quarto! Mas não quis pensar muito nisso...
O tempo estava passando, estava chegando perto do horário do almoço. O telefone tocou! Era o meu carrasco. Avisava que (excepcionalmente) naquele dia almoçaria em casa, ordenou que eu aprontasse o almoço, e logo! Eu respondi afirmativamente (fiquei branca imediatamente, dura como uma pedra, minhas mãos gelaram! Ele trabalhava perto de casa. Em menos de dez minutos estaria lá, me vendo de roupas trocadas e malas prontas! Pânico!) sem pensar bati o telefone. Derrepente eu tive a intuição de que, com a minha atitude "grosseira", voltaria ainda mais rápido para revidar e não dar o braço à torcer! Resultado: cinco minutos depois ouvi o portão batendo com força! Nosso quarto estando no térreo, abri a janela e saí apenas com uma mala nas mãos, tentando me apressar e fazendo o mínimo de ruídos possíveis! Saí pelos fundos. Corri até o outro lado da rua. Minha salvação: Um táxi! Entrei nele sabendo que eu tinha no bolso cinco reais. Mal conseguindo falar (dicção perturbada por causa do meu pavor) ordenei que me levasse ao litoral. Notando a minha situação de desespero, minha palidez facial, sem me indagar o motorista assim o fez. Estando eu dentro do carro, logo me abaixei temendo que o verme estivesse me vendo! No caminho, que levaria uns trinta minutos, confessei em linhas gerais a minha situação para o taxista. Para a minha sorte, ele tinha um espírito cristão, não me cobrou a viagem e meu deu um cartão. Disse que eu poderia lá encontrar um abrigo temporário. Já na praia eu me despedi do taxista e ele de mim (que pareceu se compadecer de mim). Ele se foi.
Estava usando um casaco já velhinho que tinha mas que gostava, com uma mala e um maço de cigarros nas mãos. Me dirigi em direção ao mar, prometendo a mim mesma que a minha vida seria diferente...Joguei o cigarro já aceso pro lado, larguei o casaco e a mala sei lá onde e continuei caminhando sem rumo na areia da praia....

